domingo, 26 de janeiro de 2014

Henriqueta Lisboa - Flor da Morte

O mistério

Na morte, não. Na vida.

Está na vida o mistério.
Em cada afirmação ou
abstinência.
Na malícia
das plausíveis revelações,
no suborno
das silenciosas palavras.

Tu que estás morto
esgotaste o mistério.

Ora a distância perseguias,
ora recuavas.
Era o apogeu ou o nirvana
que tateando buscavas?

Ah! talvez fosse a morte.

Não se sabia quando vinhas
nem quando partias. Eras
o Esperado e o Inesperado.

Grandes navios viajavas
com a mesma estranha gratuidade
com que ao planalto descias
por uma escada de nuvens.
Belo de inconstância e arrojo
com teu lastro de intuições,
a um apelo da noite
todo te entregavas, trêmulo
entre carícias e tempestades.

Que mundo vinha nascendo?

Ah! Talvez fosse a morte.

Conheceste os suspiros,
o lento disfarce do sangue,
as rosas do espírito, as secas
rosas nos dedos trituradas.

Por uma solução ansiavas...

Ah! talvez fosse a morte.

Agora estás poderoso
de indiferença, de equilíbrio.
Completo em ti mesmo, forro
de seduções e amarras.
Nada te açula ou tolhe.
És todo e és um, apenas.
A plenitude da água,
da pedra,
tens.
E és natural, és puro, és simples como
a água, a pedra.


É uma criança

Por que tantos soluços?

É uma criança. Brincou
e adormeceu.
Os anjos estão presentes
(não soluceis)
com delicados pés de lã
e asas de neve.

Que tragam flores outras crianças.

Nada mais lindo que uma pálida
criança adormecida entre flores.
E, enquanto os anjos dedilham
cítaras de ouro, suavíssimas,
as outras crianças em torno
da que repousa, dancem.

Dancem com flexibilidade de junco
à beira do rio. Dancem
com inocência de borboletas
à entrada do bosque. Dancem
com leveza de zéfiro
levantando cortinas.

Dancem com os cabelos livres
e os tenros braços no alto
em forma de foice. Ou de arco.
(A foice para ceifar espigas,
o arco para protegê-las).

Dancem de modo tão perfeito
(nos lábios coral e pérola)
que a criança dormida sonhe
e murmure consigo: a morte,
como é bela.


Sofrimento
No oceano integra-se (bem pouco)
uma pedra de sal.

Ficou o espírito, mais livre
que o corpo.

A música, muito além
do instrumento.

Da alavanca,
sua razão de ser: o impulso.

Ficou o selo, o remate
da obra.

A luz que sobrevive à estrela
e é sua coroa.

O maravilhoso. O imortal.

O que se perdeu foi pouco.

Mas era o que eu mais amava.


Vem, doce morte

Vem, doce morte. Quando queiras.
Ao crepúsculo, no instante em que as nuvens
desfilam pálidos casulos
e o suspiro das árvores - secreto -
não é senão prenúncio
de um delicado acontecimento.

Quanto queiras. Ao meio-dia, súbito
espetáculo deslumbrante e inédito
de rubros panoramas abertos
ao sol, ao mar, aos montes, às planícies
com celeiros refertos e intocados.

Quando queiras. Presentes as estrelas
ou já esquivas, na madrugada
com pássaros despertos, à hora
em que os campos recolhem as sementes
e os cristais endurecem de frio.

Tenho o corpo tão leve (quando queiras)
que a teu primeiro sopro cederei distraída
como um pensamento cortado
pela visão da lua
em que acaso - mais alto - refloresça.

Passarinho



Passarinho não canta,
Passarinho não come,
passarinho não bebe.

Passarinho anda triste.

O que foi passarinho?
Mudas as penas, tens febre?
Não te dou alface, alpiste,
água clara? O companheiro? ...

Passarinho quieto, quieto,
nas próprias asas se esconde.

O companheiro levou-te
a voz, a garganta, o bico ?

Enterraram-se com ele

no lodo negro as escalas
aéreas de trampolim,
as teclas, o arco, o violino
e o piano de tua musica?

Era dele que te vinha
a auréola, o entono, o donaire
com que a cabecinha erguias
a esfuziar azougue, prata
liquida, com volutas
e arabescos de medalha?

Era dele que te vinha
o frêmito de ouro, o gozo
de jóia, pérola a perola
no aveludado dos trinos?
o arrepio de carícia
longo, fino, contagioso
de lua, de cisnes, de água
descendo, em fio, a colina?

Era dele que te vinha
tudo isto, o sol, as estrelas
o brilho do canto, as quentes
auroras na areia, ao vento
as espigas ondulando,
musgos nascendo nas pedras,
campos abertos, batidos
de lavoura, nas soalheiras?

Era dele que te vinha
aquele vinho furtivo
na espessura da folhagem
verde-jalde chuva, arco-íris
de paina tênue, delícia
de malvas brotando,
sombra de cílios no rosto, espera
do que vem trêmuloi e próximo?


eto.

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